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Entrevista a Alberto Correia, Antropólogo

Q: A arte permite nascer de novo em cada acto único de criação. No Entrudo assistimos a uma forma de arte aliada à tradição. A tradição a este nível pode ser vista como uma forma de Arte renovada, neste caso anualmente, ou apenas como uma prática mimética fiel à herança do passado ?

R: Podemos entender o Entrudo como uma perfomance que inclui as máscaras, os trajes de disfarce, os antropomorfos (compadre e comadre), os testamentos (veículo literário), o cortejo integrador e a queima dos antropomorfos. Podemos também seccionar tipologias artísticas, como a execução das máscaras.

A qualquer elemento desta estratégia subjaz o espírito de herança, quer dizer, de tradição. Não é aceitável em qualquer dos casos o mimetismo, a obediência cega à tradição. Até porque se renovam obrigatoriamente em cada ano os jovens ( em sua natureza sempre portadores de algo novo) que executam a perfomance do Entrudo. Embora nas sociedades agrárias as alterações tenham ciclos lentos.

No que diz respeito à execução de máscaras foi mais acentuado o rompimento com os cânones tradicionais. A substância de magia intrínseca dissolveu-se. Permanece como subjacente nos executantes e utilizadores a tradicional função do escárnio e do exorcismo do mal que não se entende já como os velhos terrores demoníacos mas enquanto outros terrores (nuclear, degradação de ambiente, políticas económicas ou de saúde do Estado ou de poderes mais próximos).

Q: As celebrações Entrudescas pautam-se pela licenciosidade dos seus actos visando uma expurga de todos os males para bem da comunidade. Hoje em dia, com o efeito da globalização e uma geração parca de valores, até que ponto as pessoas que encenam o Entrudo ainda se regem pelos valores que originalmente o caracterizavam? Continua a ser uma propensão natural a ligação ao culto pagão ou consequência de um dever para com a tradição ?

R:O Carnaval integrou sempre um duplo conceito: a licentia, isto é o espírito de liberdade, da permissividade, da oposição a todas as regras e como tal como que o apelo a um regresso a esse mundo mítico da felicidade original do Éden; a restituição da ordem, do harmónico equilíbrio no seio da comunidade, mediante a estratégia do público enunciado das rupturas, transgressões do que se considerava como padrão de comportamento.

Hoje as celebrações entrudescas não integram fins catárticos no sentido tradicional. A sociedade desprendeu-se de uma mística religiosa e o Entrudo constitui-se como fundamental manifestações lúdica, festiva, ainda assim propiciadora de um reforço de identidade paroquial. A aparente crueza do texto dos Testamentos não responde aos objectivos que a tradição fixara.

Q: O Entrudo em Lazarim enquanto manifestação festiva tem vindo a desenvolver-se nos últimos anos, chamando até si um crescente número de visitantes. O que acha do papel do turismo cultural enquanto meio sustentável para a promoção e valorização deste tipo de práticas ancestrais, bem como para todo o potencial de oferta cultural subjacente a estas ?

R: O Turismo Cultural com a sua bondade própria contribui hoje, substancialmente, para a manutenção da prática festiva do Entrudo. O designativo “cultural” exige-lhe essa vinculativa obediência a um formulário tradicional aberto. Mantém-no como uma espécie de “objecto museológico”.

O contributo do Turismo cultural é valioso. Ajuda a manter uma identidade daquela comunidade através da guarda de um objecto cultural tido como património – herança a salvaguardar. Faz retornar em cada ano muitos dos naturais ainda que para episódica visita. Globaliza a região naquilo que isso tem de bom (e de mal).

por Rita Piteira

 
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