"Cultura, factor de competitividade dos destinos turísticos" O Turismo tem, desde há décadas, vindo a assumir-se como uma das actividades mais importantes, seja no domínio económico “stricto sensu”, seja nas matérias sociais e culturais. Com efeito, tendo em conta as receitas que gera directamente e tendo em conta, também, o impacto que determina em outras áreas e sectores de actividade, o Turismo já alcançou o lugar de segunda indústria a nível mundial e pelos dados que se nos apresentam tem todas as condições não apenas para reforçar sustentadamente essa posição como para ainda ir mais além e atingir mesmo o primeiro lugar, tal como o demonstram os estudos de diferentes organizações competentes. O fenómeno de crescimento exponencial que se verificou nas últimas décadas ocorreu à escala global e não tem paralelo em qualquer outra indústria, ao menos com a dimensão significativa. Aliás, a pujança do Turismo teve um momento em que foi particularmente sentida aquando dos dramáticos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001. Na verdade, aquele choque à escala mundial provocou efeitos nefastos em todas as áreas de actividade e foi sem surpresa o Turismo o primeiro sector a retomar o ritmo de crescimento, fazendo com que numa perspectiva global os efeitos tivessem sido acomodados e logo superados. Pela expressão do seu crescimento e pelo facto de lidar com factores e elementos existentes nas sociedades, o Turismo determinou a criação e existência de muitos milhões de postos de trabalho, fez nascer ou desenvolver-se novas áreas do saber e permitiu o aumento do conhecimento de outras realidades sociais. Podemos mesmo dizer nesta altura em que tanto se fala de globalização que, a seguir às descobertas dos portugueses na era de quinhentos, quando ligámos a Europa à Africa, depois estas à Índia/Ásia e finalmente ao Brasil/América, foi o Turismo que gerou e provocou um encontro de pessoas e culturas à escala global, ou seja uma efectiva globalização. Só para reflexão: neste dia e nesta mesma hora quantas nacionalidades estarão representadas no conjunto de pessoas que está a visitar a “Notre Dame” em Paris? Haverá outro sector com esta perspectiva sócio-cultural e de encontro de saberes e experiências? A resposta é simples: não há. Em Portugal, e justamente em razão das características supra indicadas, o Turismo tem natureza estruturante e é a actividade mais competitiva face a terceiros mercados, sendo, igualmente, o sector de quem se espera o maior índice de crescimento. De facto, o nosso país apresenta num pequeno espaço territorial verdadeiros tesouros da arquitectura e do património, praias grandes e pequenas sempre deslumbrantes e de areia fina, serras e vales verdejantes e paisagens magníficas e com o ambiente preservado, inúmeras cidades, lugares e recantos que são verdadeiros repositórios da nossa memória colectiva. Por outro lado, temos uma gastronomia rica, temos vinhos de qualidade e temos artesanato variado, tudo a par de uma inigualável segurança e o tradicional bom acolhimento e cortesia que os portugueses dedicam a quem nos visita. Estas características que existem, que são nossas, que são inerentes ao nosso modo de ser como país e como povo, fazem de Portugal um lugar de eleição para a actividade turística. Apesar disso, temos de ter a noção que não estamos sozinhos a prestar esta actividade e temos não apenas que refinar aquilo que temos de bom como continuar a aposta em novas motivações e novos produtos, sob pena de não fidelizarmos os nossos turistas e não termos valor acrescentado relativamente a outros destinos e ofertas. Por isso mesmo, temos de investir fortemente em produtos diferenciados, na oferta de golfe e do turismo náutico assim como na da área dos congressos e incentivos; temos de investir na formação e temos de investir nas actividades colaterais ao Turismo: não podemos perder a segurança que caracteriza o país, não podemos estragar o meio ambiente, temos de melhorar os acessos, a sinalização e a informação ao turista, temos de falar línguas estrangeiras nos hospitais e em outras entidades de apoio ao turismo; temos, enfim, de apurar a vocação turística do nosso país. Em qualquer caso, é certo que o turista actual é cada vez mais informado e prepara cada vez melhor a sua viagem antes de sair e mesmo de fazer a opção pelo país ou produto, o que significa que passou a procurar num destino aquilo que ele tenha de específico e de diferenciador. Por isso, e também porque o mesmo turista já é conhecedor de muitos lugares do mundo, tornou-se, também, mais exigente; o turista passou a procurar destinos, produtos ou marcas que lhe garantam qualidade e não ter surpresas desagradáveis longe de casa. Ora estas características do turista actual constituem verdadeiras razões de oportunidade para Portugal e para a área em que hoje nos encontramos. Portugal tem os factores de diferenciação que já acima falei e tem quase nove séculos de história rica, tem monumentos imóveis e tem elementos móveis de inegável expressão estética e cultural, tem um património imaterial de tradições como poucos outros países se podem orgulhar. Assim, a partir desta realidade excelente temos de ser capazes de criar produtos turísticos, dar-lhe visibilidade e atractividade de maneira a que o turista quando consulta a net em Berlim, Londres, Amesterdão, etc,. fique a saber do Entrudo de Lazarim, das Festas dos Caretos, das Chegas de Bois no Barroso, das Festas das Vindimas por todo o Douro e de outras situações de idêntica natureza que temos por todo o país. Evidentemente, ninguém vem de Zurique a Tarouca para ver o excelente Mosteiro cisterciense de S. João; mas certamente virá se formos capazes de desenhar circuitos que, além desse evento, e apenas centrados a Norte, o levem a conhecer o Porto, Alto Douro Vinhateiro e Guimarães, como património mundial, a monumentalidade de Lamego, os néctares das Quintas que bordejam o nosso rio, as belezas raras do Gerês, as cidades romanas de Braga e de Chaves e, entre outros, os lugares de memória de Eça, Camilo, Torga e Agustina e Vale Abraão, aqui ao lado, como lugar de criação de Manuel de Oliveira. Temos a cultura do Porto e temos a modernidade da foz do Douro; temos a arquitectura do Palácio de Mateus e temos o significado estético e cultural dos Mosteiros e Conventos à volta de Lamego, temos o comboio turístico entre a Régua e o Pinhão e temos também a nova era dos passeios do Douro, temos a tradição da mesa dos quatro abades em Ponte de Lima e temos o design da Pousada do Bouro, temos, enfim, muitos outros bens culturais, materiais e imateriais que são genuínos e autênticos e que dão testemunho dos seres, dos saberes e dos sabores de épocas que nos antecederam e das quais recebemos o lastro cultural que hoje somos. Temos, por isso, também a obrigação de transformar este conjunto de bens culturais em apresentações e formatos de oferta turística susceptível de ser escolhido por quem esteja a fazer a sua opção de viagem. A verdade é que o essencial existe e a nós só nos cabe a tarefa de lhe dar uma forma e de o disponibilizar à fruição dos turistas a quem foi despertada a apetência mas que não tem conhecimento suficiente para enquadrar todos os bens e criar o seu próprio roteiro. Para o efeito, importa, antes de mais respeitar o conteúdo de cada bem cultural, (patrimonial, natural ou social) e integrá-lo de forma articulada e conjugada com os demais. Deste modo, os operadores organizam a sua oferta, seja de “short brake”, seja de incentivos, seja de “touring” normal de uma semana ou seja mesmo a contar com estadias prolongadas com situações de turismo residencial em um ou em mais lugares. Mas se a oferta deve ser articulada, outro tanto deve suceder com a actividade dos agentes turístico-hoteleiros: a oferta hoteleira é simultaneamente a beneficiária da conversão dos bens culturais em bens de fruição turística e factor da mesma fruição. Com efeito, a ocupação das unidades hoteleiras em Lamego será tanto maior quanto maior for, também, o número de turistas que procurem a sua monumentalidade assim como a dos Mosteiros e a dos Conventos que existem na sua região; mas também é certo que os turistas apenas se deslocam a esta região porque sabem que aqui encontram onde ficar, onde comer e onde obter outras respostas para as suas motivações e para os seus gostos, pois de outro modo não viriam. Havendo, deste modo, uma relação de causa - efeito entre a oferta de bens turísticos e a oferta hoteleira e de restauração, isso significa a necessidade de ser devidamente articulada a sua existência, no âmbito de cada uma delas e delas entre si. Tal facto significa a necessidade de concertação no funcionamento entre os horários de abertura dos bens culturais utilizados na actividade turística (por exemplo, se os monumentos fecharem em dias diferentes, a viagem de roteiro entre eles vai perder expressão), entre as exposições que organizam e as mostras que proporcionam (se concorrerem na realização certamente vão ter de repartir o público!). Isso significa, também, a necessidade de associativismo e de cooperação entre os agentes económicos: muitas vezes, não há articulação entre as unidades hoteleiras de modo a acolher o conjunto de quartos gerados por um autocarro e isso faz, simplesmente com que a procura se encaminhe para outros locais onde haja camas suficientes. Note-se que não estou a falar de situações virtuais e hipotéticas mas de situações efectivamente ocorridas e que muito prejudicaram este destino. Os últimos estudos têm vindo a demonstrar a tendência para a diferenciação e para a qualificação do turista. Ora nós temos condições de responder a esta nova realidade, porque temos produtos autênticos, genuínos e de excelente qualidade que o turista apenas pode fruir aqui e não em outro lado qualquer. Está, assim, nas nossas mãos criar as condições de fruição do imenso e excelente património cultural e natural que temos à nossa disposição, tanto mais que com essa actividade estamos também a valorizá-lo e a dar-lhe visibilidade. Vamos pôr as nossas energias ao serviço da nossa região; vamos traduzir estas potencialidades em riqueza efectiva e, assim, criar melhores condições de desenvolvimento das nossas gentes e do nosso país. Hélder Ferreira |