"História do Entrudo de Lazarim "
A Vila de Lazarim, no concelho de Lamego, guarda em si uma das grandes riquezas do património imaterial de Portugal, o “Entrudo de Lazarim”.
Todos os anos as suas ruas são impregnadas de cor, som e alegria. Ecoam o entusiasmo vivido no passado, ainda hoje celebrado e, com a dedicação de muitos, a sê-lo no futuro.
O Entrudo em Lazarim é considerado o Entrudo mais tradicional de Portugal, mantendo-se resguardado do fenómeno da globalização e da sua tendência para aglutinar diferentes tradições e costumes sob o mesmo espectro. É organizado desde o início dos anos oitenta pela Casa do Povo. No entanto, foi a partir de 2006 que se sentiram mudanças relativamente ao seu desenvolvimento, pois à Casa do Povo e Junta de Freguesia de Lazarim, uniram-se os esforços da Câmara Municipal de Lamego e da Progestur, e este ano também da Região de Turismo do Douro Sul, desenvolvendo em conjunto um projecto que visa potenciar esta tradição ao nível de um grande evento festivo de reconhecimento internacional.
De raízes pagãs, foi sofrendo algumas imposições da Igreja Católica, porém sempre conseguiu conciliar a sua ancestralidade de comunhão com a terra através de “práticas mágico-religiosas que fundiam o culto dos antepassados e os ritos ligados à fecundação da terra e à dolorosa e inquieta espera do crescimento dos frutos e dos gados que deveriam garantir a sobrevivência da comunidade”. De Sábado a Terça-feira a tradição do Entrudo sai à rua pela mão dos seus protagonistas, os Caretos, numa encenação carregada de simbolismo. Desde os próprios Caretos, passando pela sua actuação, no cortejo etnográfico, e culminando na leitura dos seus famosos testamentos satíricos, o Entrudo rege-se por uma licenciosidade vinda de tempos em que tudo era, de certo modo, vivido em clandestinidade, confrontando a autoridade institucional e religiosa vigente.
Semanas antes do Evento, os habitantes da vila começam a preparar-se nos vários sentidos que irão convergir na concretização de um conjunto de acções com o cunho de ritual elaborado, fiel à herança atribuída pelo tempo.
Os artesãos que nas suas oficinas desenham na madeira de amieiro fisionomias de traços zoomórficos, na expectativa de que a sua máscara seja a mais original e que possa vir a arrecadar o prémio do concurso de máscaras, realizado no último dia, são os responsáveis pela recriação de personagens, que de ano para ano se reinventam nas personalidades e ânimo dos Caretos. Em simultâneo, são redigidos os testamentos da “comadre” e do “compadre” em absoluto secretismo pelos jovens solteiros da vila, que encontram nesta ocasião a oportunidade de, através de quadras incutidas de malícia e ironia, divulgar em praça pública, o que muitas vezes fica por dizer e que de outra forma nunca seria dito, explorando também as rivalidades entre os sexos.
Num ambiente jocoso, em que os presentes se encontram bastante receptivos ao que se declame, pois nem sempre assim foi, vão-se atribuindo defeitos, fraquezas, vícios e outras insolências, algumas pessoalmente dirigidas, outras de carácter mais difuso, para todos os que nelas se reconheçam ou revejam.
Visando a expurga dos males inerentes à comunidade bem como dos que poderão dificultar as boas colheitas e saúde do gado, os bonecos antropomorfos que simbolizam a “Comadre” e o “Compadre” são queimados na praça de modo a proceder a um renovação que irá originar um ciclo de prosperidade.
No fim, para acalmar os ânimos, são servidos os típicos pratos de caldo de farinha e feijoada, confeccionados pelas mulheres da aldeia, aos muitos que por ali se encontram ainda com resquícios trocistas ou simplesmente divertidos devido ao episódio dos testamentos e outros ainda que, confrontados com esta manifestação etnográfica, registam o máximo que a sua memória possibilite.
A celebração do Entrudo em Lazarim vem vindo a atingir novas dimensões enquanto atractivo para destino turístico, observando-se de ano para ano uma maior afluência de forasteiros curiosos pelo contacto com um tempo de tradições antigas. |